Harry desceu as escadas e encontrou Hermione, chorando. Sentou ao seu lado em um dos últimos degraus e a consolou. As paredes de Hogwarts traziam um aspecto obscuro à cena, porém não estranho ao momento. Pobre garota, pensei, mal sabe que seu amado a ama. Poxa, lembro-me desses três bem criancinhas quando eu tinha em torno de uns oito ou dez anos. Pareciam menores que eu, e agora são mais velhos também. Harry Potter era e ainda é um dos únicos filmes que consegue prender a minha atenção, do começo ao fim, de uma maneira assustadora. Toda essa história de magia me encanta, e acho que ter acompanhado não apenas a vida dos três atores, mas também dos três personagens, enfatiza essa concentração.
Enterrado em meio à dois cobertores, apreciava o filme no conforto único que apenas a minha casa consegue me oferecer. Atchim! Saúde para mim. Não há resfriado que resista a um filme, acompanhado de um ambiente escuro e quente. Fazendo-me companhia estavam minha gata e a minha vó. Ambas cobertas no sofá vermelho estampado com manchas amareladas, creio que tão confortáveis quanto eu.
Decido dar uma olhada no rosto de minha vó e vejo que ela havia dormido. Seu rosto coberto com algumas marcas da idade e feições delicadas estava bordado com o cobertor felpudo, parecendo realçar-lhe o sono. Comecei a pensar na vida que ela afirma ter levado, no quanto trabalhou enquanto criança para conseguir um pouco de comida. Mesmo com um ar de rejeição, eu sabia que esses fragmentos que ela costuma compartilhar de sua vida são verdadeiros. Mentalmente, montei uma das cenas de sua infância. Misturando pobreza, medo e suspense, creio que pude ter uma noção do que ela um dia sentira, porém sei que tais sentimentos e emoções, só podem ser sentidos em sua forma crua por quem vivenciou o momento.
Uma breve comparação entre nós foi inevitável. Aqui a minha concentração no filme já não mais existia, e seu sabor havia perdido a intensidade. Pus-me a pensar e refletir sobre o quanto esta guerreira a qual chamo de vó batalhou durante sua vida para chegar aonde queria, para vencer. Como um livro, folheei sua vida, revendo parte por parte, até chegar no momento de sua gravidez. Existe algo mais belo do que a mãe que batalha pela vida do filho, pondo de lado, por vezes, a própria? Quantas humilhações, afinal, você já não deve ter aguentado, quantos problemas, daqueles parecem querer nos destruir, a senhora já não deve ter enfrentado? E nem por isso desistiu, pelo contrário. Como sou ingrato e estúpido, pensei. Em meio a tantos fragmentos e reflexões rodeando a minha cabeça como luas, uma das certezas que pude ter foi que, comparado à ela, desconheço o sofrimento.
Eduardo Israel